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Devaneios

A rotina do devir

20 de abril de 2017
access_time 4 minutos

Domingo era dia de ir ao parque central.
Acordar pela manhã, por volta das 6:00, que já era rotina de domingo.
Após o despertador tocar, eu levantava, colocava as pantufas e ia escovar os dentes.
Não conseguia utilizar o banheiro, pois, para meu intestino, era cedo demais para funcionar em um domingo de manhã. Então, pulava do ato de escovar os dentes para o de preparar o café da manhã.
Geralmente, eu comia o pão dormido de sábado a tarde com alguma manteiga e tomava um iogurte. Odiava café. Maracujá me acordava mais que a tal da cafeína.
Enfim, tomava meu café da manhã, escovava meus dentes novamente, porque tinha medo de perder um dente por falta de cuidados, depois tomava meu banho e colocava meu short mais velho, uma blusa de seda e meu velho e bom casaco de tricô.
Finalmente, saia de casa e ia para o parque.
Havia anos que eu tentava ir alimentar pássaros coloridos e silvestres, porém só vinham pombas e pardais.
Como sempre, nesse domingo não foi nada diferente. Os mesmos pardais, as pombas e a mesma rotina.
Contudo, algo foi diferente naquele dia.
Eu vi, pela primeira vez, um garotinho de 8 anos lá. Uma criança de 8 anos estava, às 6:35, no parque central. Ninguém nunca estava lá nesse horário, só os velhinhos dos jogos de xadrez.
O garotinho sorria e falava “voa, passarinho… Seu lugar não é aqui comigo. Voa.” Fiquei intrigada e fui falar com ele.
Quando eu olhei, ele estava conversando com um passarinho branco com a cabeça vermelha cor de sangue, chamado Cardeal. Deve ser por se assemelhar às batinas brancas e àqueles panos vermelhos que os cardeais da Igreja usam.
Era um passarinho lindo! Eu ia nesse horário todo dia de domingo e nunca o vira. Parecia que ele estava lá todos os dias, todos os domingos, todas as manhãs e eu nunca o tinha visto. Eu só vi as pombas e pardais.
Fiquei com raiva e questionei o garotinho “O que fizera para que o cardeal aparecesse?”
O menino, ainda sorrindo, olhou no fundo dos meus olhos e disse “Nada”.
Eu não acreditei. Era impossível. Eu colocava comida todos os dias e só vinham os mesmos de sempre.
Assim, o menino, vendo minha angústia e frustração com aquela resposta, me falou: “Não fiz nada para ele chegar até aqui. Ele só veio. Ele quis estar aqui. Eu só o observei. Enquanto você colocava comida para atrair pássaros, as pombas e pardais saíam das árvores com os frutos e assim o cardeal chegava para comer. Você o ajudou a ter mais alimento”.
Naquele momento, eu entendi.
Eu não alimentava somente pombas e pardais, mas também os outros pássaros coloridos, porém, nunca observara o meu entorno. Eu ficava parada, estática, encarando as mesmas coisas de sempre.
Eu sempre fazia as mesmas coisas. Nunca mudava.
Aquele garotinho fez uma ação em um dia que eu deveria ter feito tempos atrás.
Percebi. Acordei. Cansei do mais do mesmo.
Eu não era a mesma mais. Por incrível que pareça, o menino de 8 anos me mostrou uma nova percepção com apenas algumas frases.
Me senti idiota, mas me senti mudada.
Eu precisava de um novo olhar com novas perspectivas. Consegui.
A partir daquele dia, nada era igual. Eu acordava em outros horários. Fazia novos passeios. Ia a outros parques. Vi novos olhares. Vi novos sorrisos.
Não tinha mais apenas o cinza e o marrom das pombas e pardais. Agora, eu tinha todas as cores em minha vida e era tudo lindo.
Sentia uma explosão de cores e sentimentos.
Quem diria que uma simples mudança de olhar e inclinar a cabeça em alguns graus iriam fazer tanta mudança.
Agora não era mais um domingo pela manhã no parque central. Era um domingo que poderia ser em qualquer lugar ou qualquer outro dia.
Era apenas um dia que deveria ser realmente vivido e observado como um dia único cheio de peculiaridades.
A única rotina que estabeleci era aquele tal chamado Devir.

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